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Carta 1 - Recomeço

  • Foto do escritor: Viviane Lopes
    Viviane Lopes
  • 8 de ago.
  • 3 min de leitura
São Paulo, 7 de agosto de 2026 — 18h51

Escrevo do meu apartamento, enquanto meu gato insiste em encontrar um espaço entre a tela e meus braços.


Se você me acompanha há algum tempo, talvez tenha notado o silêncio. Se está chegando agora, seja bem-vinda — ou bem-vindo. De um jeito ou de outro, esta carta é para você.


Porque eu estou num recomeço. E queria contar um pouco sobre ele.


Minha história com a arte começou muito antes de eu saber que aquilo poderia ter um nome.


Eu tinha três anos quando ganhei minha primeira caixa de lápis de cor. Lembro da sensação de olhar para uma folha em branco e descobrir que ali cabia um mundo inteiro.


Talvez eu tenha me tornado artista naquele instante.


Mas levei muitos anos para voltar até aquela menina.


No caminho, tornei-me psicóloga. Estudei o comportamento humano, construí uma carreira, empreendi, ensinei outros profissionais e passei muitos anos escutando histórias de mulheres.


Histórias sobre amor e abandono. Sobre violência, apego, medo. Sobre relações que ferem e padrões que parecem se repetir mesmo quando juramos que, desta vez, será diferente.


Durante muito tempo, acreditei que aquele era o meu propósito.


Até perceber que, enquanto ajudava outras pessoas a compreenderem suas histórias, havia partes da minha própria história que eu ainda não sabia escutar.


Meu corpo sabia.


E começou a falar.


Depois do fim de um casamento de dezessete anos, vieram acontecimentos que me obrigaram a interromper o modo como eu vinha vivendo. Meu corpo adoeceu. Vieram diagnósticos, dores, limitações e perguntas para as quais nenhuma conquista profissional parecia oferecer resposta.


Foi quando compreendi uma coisa difícil de admitir:


algumas das escolhas que eu chamava de propósito também haviam sido feitas pelas minhas feridas.


Eu havia transformado sobrevivência em competência. Aprendi muito cedo a cuidar, sustentar e resolver. E fiz tudo isso muito bem.


Só não havia aprendido, com a mesma dedicação, a escutar a mim mesma.


Foi preciso que a vida fizesse barulho.


E fez.


Quando o caos bateu à minha porta, algumas estruturas desmoronaram. E foi nesse mesmo período que eu me afastei daqui — de quem me lia, de quem me escutava. Não foi decisão. Foi sobrevivência.


Entre aquilo que caiu, comecei a enxergar uma mulher que eu havia deixado esperando por muitos anos.


Foi então que a arte voltou.


Ou talvez seja mais verdadeiro dizer:


**eu voltei para ela.**


Em maio de 2026, viajei para o deserto do Atacama.


Fui carregando perguntas que ainda não sabia formular e cheguei a uma paisagem que, de alguma maneira, se parecia comigo: imensa, árida, silenciosa — e cheia de vida onde, à primeira vista, parecia não haver nada.


Ali, diante de montanhas, pedras vermelhas e um silêncio que parecia não terminar, dei de cara com coisas que eu havia passado boa parte da vida tentando não olhar.


Medos. Memórias. Ausências.


Mas apareceu também alguma coisa que eu não esperava:


vontade de criar.


Dessa travessia nasceu *Pedras Vermelhas*, o livro que escrevo enquanto estas palavras chegam até você.


E nasceram também novas pinturas.


Uma depois da outra.


Como quem deixa pequenas pedras pelo caminho para conseguir achar a estrada de volta para casa.


Hoje entendo que minha arte não nasceu apesar da minha história.


Nasceu atravessada por ela.


Pinto corpos que viram deserto, luas que carregam ciclos inteiros dentro de si. Pinto raízes buscando chão e despedidas que ainda estão aprendendo a virar recomeço.


Pinto aquilo que, às vezes, não sei explicar de outra maneira.


Não trago hoje nenhum convite, nenhum lançamento, nenhuma proposta. Só queria que você soubesse onde eu estava — e que continuo aqui, num corpo que ainda está aprendendo a se recompor.


Talvez ser uma mulher plena nunca tenha sido sobre finalmente ter todas as respostas.


Talvez seja sobre poder habitar todas as nossas partes — inclusive aquelas que passamos anos tentando esconder, consertar ou deixar para trás.


Eu ainda estou aprendendo a fazer isso.


Ainda estou voltando.


E se você chegou até aqui — seja porque já me conhecia, seja porque está me conhecendo agora — meu gato acabou de encontrar o colo que procurava. Talvez seja só isso, no fim: continuar oferecendo espaço para o que insiste em chegar até nós.


Com carinho,

Viviane Lopes


Vale de La Muerte - Atacama
Vale de La Muerte - Atacama

 
 
 

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